Naquela noite precisou andar. Andar pra pensar, ou pra não pensar. Andar, pois se entrasse naquele ônibus com certeza sufocaria. Estava frio, mas ela não se importou. Andou, e andou, e andou, sentindo o frio, sentindo o cansaço, sentindo os olhos arderem pelas lágrimas que não caíam, e o bolo na garganta, do choro que não conseguia soltar, o bolo que crescia, e crescia a cada passo que ela dava e que por pouco não a fez sufocar. O bolo que a fez tossir e engasgar, e que ela pensou que ia finalmente impedi-la de respirar e a fazer desmaiar no meio da rua, no caminho pra casa. O bolo que só se desfez quando parou de andar, sufocada e tonta, e finalmente conseguiu chorar, as lágrimas caindo, mornas, pra em seguida se tornarem geladas e ardidas em seu rosto também frio. Ela mal via onde estava, mal percebia o caminho conhecido passando, não via nada, apesar de enxergar tudo, a música alta nos fones de ouvido atordoando um pouco mais os sentidos, não queria pensar, não queria sentir, não queria nada. Queria o nada. Não o conseguiu. Tristeza, raiva, culpa, tudo girava ao mesmo tempo em sua cabeça, sem parar, num turbilhão, um verdadeiro tornado, destruindo tudo, pondo tudo no chão, a começar por ela própria. Seguiu andando, um passo, depois outro, e outro depois. Surpreendeu-se ao perceber que já chegava ao portão de casa, não vira o caminho passar, não sentira o próprio caminhar. Teve a certeza absoluta de que, não fosse o fato de o caminho ser conhecido, a ponto de nem precisar olhar pra onde estava indo para que as pernas a levassem aonde tinha de ir, ela possivelmente não teria conseguido chegar em casa.
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