sábado, 4 de junho de 2011

Naquela noite precisou andar. Andar pra pensar, ou pra não pensar. Andar, pois se entrasse naquele ônibus com certeza sufocaria. Estava frio, mas ela não se importou. Andou, e andou, e andou, sentindo o frio, sentindo o cansaço, sentindo os olhos arderem pelas lágrimas que não caíam, e o bolo na garganta, do choro que não conseguia soltar, o bolo que crescia, e crescia a cada passo que ela dava e que por pouco não a fez sufocar. O bolo que a fez tossir e engasgar, e que ela pensou que ia finalmente impedi-la de respirar e a fazer desmaiar no meio da rua, no caminho pra casa. O bolo que só se desfez quando parou de andar, sufocada e tonta, e finalmente conseguiu chorar, as lágrimas caindo, mornas, pra em seguida se tornarem geladas e ardidas em seu rosto também frio. Ela mal via onde estava, mal percebia o caminho conhecido passando, não via nada, apesar de enxergar tudo, a música alta nos fones de ouvido atordoando um pouco mais os sentidos, não queria pensar, não queria sentir, não queria nada. Queria o nada. Não o conseguiu. Tristeza, raiva, culpa, tudo girava ao mesmo tempo em sua cabeça, sem parar, num turbilhão, um verdadeiro tornado, destruindo tudo, pondo tudo no chão, a começar por ela própria. Seguiu andando, um passo, depois outro, e outro depois. Surpreendeu-se ao perceber que já chegava ao portão de casa, não vira o caminho passar, não sentira o próprio caminhar. Teve a certeza absoluta de que, não fosse o fato de o caminho ser conhecido, a ponto de nem precisar olhar pra onde estava indo para que as pernas a levassem aonde tinha de ir, ela possivelmente não  teria conseguido chegar em casa.

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