Primeiro Ato: O encontro
Ela não devia ter corrido. Nem acenado. Devia simplesmente ter deixado o ônibus partir. Mas correu. Acenou. E mesmo não sendo permitido, o motorista a deixou embarcar. "À noite todos os gatos são pardos.", ele disse, rindo, e olhando para trás. Havia mais dois "gatos pardos" no ônibus escuro, rindo também. Estava tímida, mas fizeram com que se sentisse à vontade. Falaram bobagem, no percurso curto, riram. E no desembarque, não estava sozinha, havia uma companhia para o trajeto seguinte. A conversa continuou, fácil. E os primeiros olhares. Os olhares. Aqueles olhares. Na hora do tchau, telefones trocados. Ela não levou a sério. "É claro que ele não vai ligar."
Segundo Ato: Primeiros passos
Ele ligou no dia seguinte. O que? Ele ligou? Marcando um encontro pro outro dia. Um chimarrão, uma conversa, tudo muito despretensioso. Muito bem, o que há de mal nisso? Um sim, meio surpreso, meio sem querer. Sim.
Despretensiosamente. Não havia expectativa. Era só um chimarrão, afinal. Quando se encontraram... onde estava o chimarrão? Ele esqueceu. Tudo bem. Sentaram no sol, conversaram sobre tudo e sobre nada. Alguns silêncios aqui e ali, mas nada constrangedor. Pequenas pausas. Depois, uma caminhada entre as árvores, mais conversa, mais silêncios. Alguns daqueles olhares, que a deixavam em dúvida, meio sem jeito, ligeiramente sem ar. Chegou a hora de ir embora. Ele pediu um beijo, ela disse que era cedo. Ele aceitou.
Terceiro Ato: As recusas
Os encontros eram quase impossíveis. O tempo (ou a falta dele) não colaborava. Os horários, menos ainda. Quando ela podia, ele não podia. Quando ele podia, quem não podia era ela. Filmes não foram assistidos, sessões de cinema foram perdidas, caminhadas não aconteceram. O msn ajudou um pouco, mas, assim como levava as brincadeiras, os convites (recusados), as provocações, levava as pequenas discussões, acusações. Duas chances, em duas idas para casa. Ele provocou, sem saber, exatamente do jeito certo. Ela devolveu a provocação, meio sem pensar. Mas recuou. O beijo foi no rosto, os olhos desviaram. "E na boca?", ele perguntou. "Hoje não.", ela respondeu. O sms, mais tarde, já em casa, disse o que os lábios não tiveram coragem. "Logo."
Quarto Ato: O(s) beijos(s)
Ela se rendeu. Ao que, na verdade, era o que queria. Dia e hora marcados, coração apertado. E se não desse certo? E se ela fizesse tudo errado? Subiu no ônibus receosa, mas decidida. "Não passa de hoje.", dissera para ele, mas também a si mesma. Não passou. Deu certo. Deu mais do que certo. Beijos, beijos, beijos. Um brinco perdido. Dane-se o brinco. Aquela era mesmo ela? Beijos, beijos, beijos. Sair de um ônibus, entrar em outro. Frio, sussurros, provocações, arrepios. Beijos, beijos, beijos. O trajeto foi muito curto. "Não vou te deixar descer.", ele disse. O motorista precisou esperar um pouquinho. O perfume ficou na roupa, na pele. Ela não queria que saísse dali nunca mais.
Quinto Ato: O fim?
Ela não entendeu. Nada. E ele não explicou. Tudo parecia fadado a dar certo. Não deu. Depois de um tempo afastados (mais uma vez, a falta de tempo) um novo convite, agora partindo dela. Um chimarrão, uma conversa, a promessa de algo mais. Dessa vez, ela levou o chimarrão. Logo de início, um desencontro. Seria um sinal? Ela não prestou atenção àquilo, somente à presença dele. A conversa começou tranquila, virou discussão, depois silêncio. Complicações. Ficou frio, em todos os sentidos da expressão. Ela tentou contornar, ele não deixou. Irritaram-se, os dois, e ela foi embora, sem olhar para trás, e sem que ele tentasse impedir. Não houve mais encontros, nem conversas. O perfume se tornou incômodo, a falta de respostas, um tormento, as lembranças... As lembranças. Ao fim, elas são tudo o que restou.
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